terça-feira, 31 de março de 2015

insônia

quero que você me morra na base da angústia 
da unha na carne mesmo
mas que antes me mate de falta

essa presença é um bicho que alimento
e depois chuto pelos cantos

vai, tira minha vida assim, um dia depois do outro
que nem buraco de bala 
até que sobrem os que eu acordei sem você

só o sonho que é bom, toda vez um rosto diferente 
olhando pra mim
sonhar com você é uma roleta russa
sempre morro no seu sorriso

agora deixa eu levantar e fazer a barba
pra tirar essa insônia da cara
- de noite a gente conversa

sábado, 6 de dezembro de 2014

das horas inconscientes

sinto-me preso por ter sido solto num mundo de alegrias e grilhões. noites sem sono, noites sem dono, dias que vêm em vão. tanto corri atrás disso que devo ter chegado cansado à vida por assim viver. no entanto, cansado mesmo eu estou dos tantos querias que vieram à minha mente.

entendo as flechas e entendo os arcos, mas sinto o alvo tão, tão distante, que já nem sei se posso ver o branco em seus olhos. preciso respirar as palavras, preciso superar o obstáculo em que eu mesmo me tornei. será que preciso de um guia? deus já existe: e agora?

as horas inconscientes me dão cada vez mais medo. não sei o que fiz, não sei o que não fiz. a culpa que vem da possibilidade de ter feito me causa tanto remorso que volto a procurar os meios de punição já tão conhecidos pelo meu corpo.

tantos planos e tanta felicidade... será que isso pode ir pelos ares assim, como fumaça de cigarro?

que pecados cometi pra que essas angústias sejam justas? preciso de respostas mas, se algum dia eu consegui-las, o que diabo vou fazer com elas?

não sei. não sei: esta é, agora, uma das minhas tantas frases de ordem.

sábado, 11 de outubro de 2014

essa minha língua lusa

essa minha língua lusa
abusa do som do trovão
passa o sonho na lousa
e, trocando de estação
estabelece que a coisa
não tem causa ou efeito
nem tem jeito ou censura
tem cura se para no peito
tem uma cara que não atura
o tanto que passa no tempo
portanto ela sobe no muro
põe-se em olhos amarelos
só pra ser gato no escuro

sexta-feira, 10 de outubro de 2014

evidência nossa de cada dia

essa minha língua 
na ponta do lápis
lambe-me as linhas
pra que as apague

adjevirto quem tente

me ler de repente

pois já está dito
o princípio era o verbo

se ser ou estar 
caberá somente
aos intérpretes dos gritos
que eu acabei de apagar

quinta-feira, 9 de outubro de 2014

oceana

um poema tem tantos
nomes tantos poemas
e tantos nomes não
rimam, nomes primos
que se importunam
somente por si mesmos
como o nome sem nome
sem verso, sem poema
que oceana, mar.

quarta-feira, 8 de outubro de 2014

força motriz

quando disse "faça-se a luz"
com certeza quis dizer café
primeira obra a ser feita
mesmo num domingo de manhã
descansar é para poucos
coisa de deuses da chuva
dos barulhos de tupã

a primeira obra divina
foi posta num copo de vidro
taí um gole que a gente
[não deixa pra santo nenhum

aí, sim, a gente cai na rotina
a gente gera e se ilumina
e a gente se mexe

ah, cafeína,
força motriz.exe

terça-feira, 7 de outubro de 2014

ó, pedaço de mim

ó, pedaço de mim
o sol não veio com o dia
disse que viria

assim como veio um pedaço
de vida pelo correio
que eu nunca paguei em dia

deixei o plano da existência
tá vendo, pedaço de mim,
que sonhos não têm carência

bem, o que se quis
se fosse à vista 
eu inda era feliz

a gente se vê por aí
no nosso caso
é seguro dizer
terra a prazo

quinta-feira, 2 de outubro de 2014

está à venda um apanhado de poemas que escrevi, postos em e-book. são cinquenta e seis poemas num ebook simples, de cinquenta e oito páginas. quem lê o que escrevo pode imaginar o que há neste e-book mas, para quem ainda não conhece, são poemas que variam entre sonetos, poesia minimalista e algum quê pós-moderno. influências de paulo leminski, poesia do nordeste brasileiro e brasileira em geral, cultura pop etc. o valor está em R$ 8,00.



domingo, 7 de setembro de 2014

acusado in terno


a testemunha 
crava suas unhas
nas palmas do medo.
o juiz aponta o dedo: 
- culpado!

todos olham de lado, 
o alívio é imediato.
ninguém sabe como
mas, o culpado, de fato,
era o mordomo.


(que nesse dia estava de folga)

sábado, 6 de setembro de 2014

trechos e desvios

...as flores que escorregam dos meus olhos dão para o parque industrial. o petróleo que doura os olhos sem flores me afoga numa noite sem estrelas, enquanto sorvo delicadamente cada gole de frio.

paro um caminhão e encontro uma dor antiga ao volante. pelo visto, o passageiro, agora, sou eu.

depois de algumas curvas e desvios salgados, peço-lhe que pare no bar mais próximo, para que eu afogue lentamente os meus sonhos mais recentes numa dose de uísque.

nega-me e arrasta-me para o inferno, 
onde tudo é feito de engarrafamento e buzinas.

Vou para onde estão os outros passageiros, alongando, como eu, as correntes da castidade... 

toco-me só e em silêncio: 
gemidos não são bem aceitos pelos meus medos.

sexta-feira, 5 de setembro de 2014

partindo de uma frase

partindo de uma frase
fui parar em outra esquina
onde quase tudo era quase
e onde quase nunca termina

virei a citação do momento
tendo aspas como morada
pousei onde não bate vento
e onde a língua da namorada
tem tradução e entendimento

aqui onde ainda é ontem
fui mais feliz que o normal
e peço que não me contem
o que há antes do ponto final.

quinta-feira, 4 de setembro de 2014

ao mar

aos olhos teus, quando marés, 
os meus se desfazem, areia;
quando chegam à maré cheia,
fazem água ao molhar os pés.
basta que me sigam, apenas,
as marés aos meus pés tristes;
talvez mãos ganhassem penas
e se erguessem asas em riste.
então, olhos e asas molhadas,
irei sem saber pra onde vôo;

descobrirei a penas acidentadas
o quanto custa saber quem sou.

quarta-feira, 3 de setembro de 2014

força do hábito

me desliguei da vida feito um ser ilógico
eu pus nos pés a terra num passe de mágica
e morri feito amante que se entrega ao hábito

em sonho vi nos anjos um anseio fálico
mas despertei a tempo de louvar em cântico
e a voz foi de repente parecendo explícita

errando pelo claustro vinham freiras bêbadas
de vinho e de alegria por voltar do hospício
onde encontraram deus em sua santa cólera

temi que me ouvissem e num horror estúpido
mantive a porta aberta pra enganar o gênese 
e entreguei o ventre aos meus apelos mímicos

foi tudo calculado com cara de máquina
trinquei dentes num gosto que supus ser pólvora
e à voz dos anjos virgens explodi em música

terça-feira, 2 de setembro de 2014

alcoolírico

ponha um litro
de absurdo
com dois dedos
de absinto
para então 
de quando
em quando
entrar em coma
alcoolírico

segunda-feira, 1 de setembro de 2014

minha poesia à margem

minha poesia 
à margem
é toda narciso
feita a minha imagem
ela é tudo o que eu preciso

domingo, 31 de agosto de 2014

o poema andava tão à margem

o poema andava tão à margem
que caiu no rio
de janeiro
seguiu viagem
foi pra são paulo
e de lá
pro mundo inteiro

sábado, 30 de agosto de 2014

poema para os olhos

é coisa de doce que nada entre 
peixes e sereias 
é cor da areia em noite escura
e dura tanto 
quanto a infância

faca sem fio feita a lápis
moda que não passa
pigmento de felicidade

sem marcas, manchas
máculas

coisa que se lê
em livro de figuras

estampada
na fotografia

dos teus olhos

sexta-feira, 29 de agosto de 2014

reintegração

o cigarro acaba, saio da quarentena quase esquecido da cor azul do céu. bem mais que eu, o céu está nublado e as pessoas ao redor, cheias de cinza. vago pela rua a passos firmes, na saga curta por um boteco, e acho graça, mas também deprime quando uma nuvem paira sobre mim. compro fiado um maço e fósforos. prometo que pago amanhã com a mesma tranquilidade com que jurei amor eterno à minha primeira namorada. ela era uma daquelas moças para quem se jura amor eterno e logo se esquece, mas finge que não esquece pra poder lembrar. saio do botequim com um cigarro a menos porque aconteceu de o apêndice do quartinho de cachaça ser fumante inveterado. merda, começou a chover. aproveito a saída, sento num canto do botequim. acendo um cigarro. lá se vai minha promessa de amor eterno.

quinta-feira, 28 de agosto de 2014

poema

o que canto se escreve, não se lê
só uma palavra largada em folhetos
não tem nem por onde, vai ter porquê?
seus versos dormem em ruínas, inquietos
despertam num vão, ninguém sabe aonde
correm nas rotinas morrem nos feriados
fugiram de casa têm os pés inchados
se rogo por eles nem deus me responde
o poema prostrado saiu da gaveta
um verso rasteiro o levou pra sarjeta
e achou a palavra sem lar nem língua
sem filhos nem pai, nem mãe também

e vejo agora a voz morrer à míngua
feito andarilho nos trilhos do trem.

quarta-feira, 27 de agosto de 2014

adniílo

fez de si mesmo uma mentira, expôs-se em retalhos de aço; no entanto, estava ele enclausurado entre grades e bolhas de sabão.

preso, sim, e sabia por quê.

acusado pelo assassínio de um coração.

culpado. 

carrasco da própria sorte, 
lançou-se egoisticamente à cruz.
não esperava piedades, embora parecesse:
seu choro aumentava pouco antes de ser enxugado pela própria garganta.

era uma pessoa má: entregue em vestais mas, ainda assim, má.

entre cuspes e gritos e dedos em riste,
em meio à vaias e caias e palavrões,
imerso em suas dores dos outros,

esperava apenas que 
o esquecimento passasse por ali.

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